Atropelamento em Por Você foi realista, mas não abusivo
O limite do realismo na cena de Por Você, a IA no lugar de artistas, o futuro de Tom Cavalcante na Record, as novelas dos streamings e os educativos da Globo.
Adicione o Canal do Vannucci como fonte preferencial no GoogleA cena do atropelamento do personagem de Thiago Lacerda em Por Você, a novela das sete da Globo, dividiu o público. Houve quem achasse a sequência pesada demais para um horário com crianças diante da TV, lembrando que os próprios telejornais da emissora costumam esfumaçar imagens de acidentes. A discussão é válida, porque cada faixa de horário tem o seu limite.
Atropelamento, porém, sempre fez parte da dramaturgia, em novela, série e filme. Cenas assim já passaram em outras novelas das seis e das sete. Hoje a inteligência artificial ajuda a deixar tudo mais real e facilita o trabalho, mas a base continua sendo o dublê, a trucagem e os efeitos especiais. A IA entra para finalizar. Em Por Você, foi exatamente essa a receita: trucagem, dublê, efeitos especiais e um pouco de IA.
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O que precisa ser medido é o limite do realismo dentro do contexto da história. A cena foi muito real, assim como o acidente do primeiro capítulo, com a pancada, o carro capotando e a pessoa presa nas ferragens. Ainda assim, não passou do limite. Abusiva, não foi.
Nem tudo precisa ser mostrado
Da mesma forma que se discutem os limites da IA, é hora de discutir os limites do realismo na dramaturgia. O público não precisa ver tudo de forma crua para entender a história. Vale o mesmo para cenas de sexo, que não precisam ser completas: o telespectador já sabe onde aquilo vai dar e tem a capacidade de continuar a história sozinho.
Cada pessoa tem o seu limite, e quem se sentiu agredido pela cena merece respeito. Por isso a direção da novela e a direção artística da emissora precisam ouvir o público e calcular muito bem a medida de cada sequência.
IA no lugar de um protagonista que morre
E se o protagonista da novela das nove morresse de repente, no auge do sucesso? A Globo recriaria o personagem com inteligência artificial? A questão é extremamente ética, porque envolve o quanto a tecnologia pode substituir o talento humano.
Há um exemplo conhecido: a propaganda que recriou Elis Regina num carro ao lado de Maria Rita. Ali, a cantora já tinha morrido, a peça partiu de uma referência conhecida e ficou claro para o público que se tratava de uma recriação. No meio de uma novela é diferente. Se um artista morre durante a trama, o autor vai precisar de muita habilidade para encontrar um caminho e encerrar aquela história, por respeito à pessoa. Ninguém é insubstituível, mas neste caso a substituição não cabe.
Ser possível, é. Mas hoje daria muito trabalho, e sempre aparece algum detalhe que denuncia que aquilo não é natural. Outra situação é a de um artista que já morreu e, algum tempo depois, ganha uma recriação com autorização da família e todas as autorizações necessárias. Aí faz sentido. O tema ainda vai exigir muita discussão sobre até onde a IA pode ir e o que pode ser criado ou recriado por ela.
Tom Cavalcante merece mais na Record
Muita gente acha o Acerte ou Caia repetitivo, com os mesmos participantes de sempre. A repetição do elenco existe. São mais de 50 episódios por ano, e não há tantas celebridades disponíveis no mercado, ainda mais quando o programa precisa de nomes relevantes. Os produtores de elenco também acabam trabalhando com um grupo fixo de artistas, por costume ou pela facilidade. Com uma temporada sendo gravada às pressas, é preciso agilidade e convidar quem já se sabe que vai funcionar. Faltava ampliar um pouco o olhar.
Tom Cavalcante merece muito mais. Foi ele quem segurou o domingo da Record depois da saída de Rodrigo Faro, recuperou a faixa e trouxe prestígio, tanto que ganhou também o Boom! e passou a ter dois programas no dia. O Acerte ou Caia, segundo executivos da emissora, ainda não se desgastou e já tem temporada garantida para o início do ano que vem. A Record, mesmo assim, sempre está de olho em algo a mais para o apresentador.
Tom é um grande showman, muito ligeiro e de um improviso enorme, e é isso que faz a diferença no programa. A sensação de repetição vem também do próprio domingo, que na TV aberta virou game puro. A TV aberta precisa fazer TV aberta para segurar o telespectador e evitar que ele migre de vez para o digital.
Streamings atrás de novelas para 2027
Netflix, Prime Video, HBO Max e Disney+ estão todos atrás de boas histórias. O formato que interessa são as micronovelas, ou macrosséries, de 40 a 50 capítulos, no modelo que os doramas desenvolveram tão bem: temporada compacta, história centrada e poucos núcleos paralelos.
A Netflix procura projetos, o Prime Video vai abrir o período de pitching, a HBO Max tem Beleza Fatal e olha outros títulos, e a Disney+ também deve entrar nessa. Há previsão de produção. Colocar no ar já são outros quinhentos, porque o lançamento precisa ser muito bem calculado. Todas as plataformas perceberam que a dramaturgia nacional atrai assinante. O Globoplay cresce justamente por ter produção original, além de todo o acervo da Globo.
Onde foram parar os educativos da Globo
Telecurso, Globo Ecologia, Globo Ciência e Globo Ação fazem falta para muita gente. Antes ainda do Telecurso 2000 havia o Telecurso 2º Grau, que chegou a ser exibido todos os dias, e as manhãs de sábado reuniam os programas da família Globo. A televisão sempre teve um papel importante de prestadora de serviço, e a emissora cumpria isso ao lado do resto da programação.
Esse conteúdo, que era um trabalho da Fundação Roberto Marinho, continua vivo no Canal Futura, com outros programas, e aparece eventualmente no É de Casa. É um tipo de conteúdo que leva informação, e entretenimento também pode ser informação.
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José Armando Vannucci é um jornalista e escritor com mais de 35 anos de carreira dedicada à cobertura e análise da televisão. Destacou-se na Jovem Pan e em programas da TV Gazeta, TV Globo e Band, consolidando-se como referência no setor ao integrar o júri do Troféu Imprensa, no SBT, e ao lançar, em parceria com Flávio Ricco, a obra "Biografia da Televisão Brasileira". Atualmente, o Canal do Vannucci é seu espaço para compartilhar novidades sobre os bastidores do universo televisivo.
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