Nilton Travesso foi muito mais do que um diretor genial
Adicione o Canal do Vannucci como fonte preferencial no Google
Nilton Travesso é um dos nomes mais importantes da história da televisão brasileira. E, sem dúvida, ajudou a construir a carreira de grandes artistas, apresentadores, produtores e diretores. Se não esteve diretamente ligado à trajetória de muitos profissionais, foi uma referência e inspiração para quem se dedica ao maior veículo de comunicação do país. Além disso, um apaixonado pela arte da interpretação.
O mestre Nilton Travesso faleceu nesta sexta-feira (06/11) aos 92 anos, vítima de uma infecção generalizada. Ele estava internado no Hospital Sírio Libanês. O velório está marcado para a manhã do sábado, num espaço na região da Avenida Paulista.
Leia tambémQuem Ama Cuida acerta com cena forte entre Elenice e Tom
Pioneiro da TV do Brasil
Nilton Travesso foi um dos primeiros funcionários da TV Record. Em 1953, quando entrou no ar, a emissora resolveu apostar em jovens talentos, mesmo sem experiência no veículo que começa a surgir no país. Para isso, organizou um concurso e selecionou a equipe a partir dos resultados de treinamento. E nesse seleto grupo estava Nilton Travesso. Como muitos, passou por várias funções até se estabelecer como diretor. E seu jeito diferente de comandar programas e novelas o levou muito longe.
Ele fez parte da Equipe A da Record responsável pelos festivais, Família Trapo e os musicais da emissora. Nesse período, dirigiu, entre outros, Roberto Carlos e Elis Regina. Na Globo ajudou a implantar o Fantástico e dirigiu os primeiros videoclipes exibidos pela revista eletrônica. Além disso, criou e dirigiu o TV Mulher, programa feminino que entrou para a história da televisão brasileira. Nilton Travesso também ocupou a direção artística da TV Manchete e a teledramaturgia do SBT. Aliás, a melhor fase das novelas da TV de Silvio Santos esteve sob sua responsabilidade.
Nilton Travesso sempre foi um homem à frente de seu tempo. Por isso, muitas das inovações na comunicação passaram por ele. Junto com Tuta, implantou a JP Online, plataforma em vídeo numa época em que os grandes portais nem imaginavam produzir conteúdo audiovisual. E, sem dúvida, levou para a internet toda a qualidade artística, sua marca registrada.
Meu mestre na TV e na vida
Eu tive o privilégio de trabalhar com Nilton Travesso. Ele me dirigiu na Jovem Pan Online e no Todo Seu, programa de Ronnie Von na TV Gazeta. Ele tinha uma habilidade única para extrair o melhor de todos nós, de conseguir o sim para o novo e de colocar um profissional num patamar superior. Eu já tinha muitos anos de rádio e alguns na TV, mas me entreguei ao olhar do mestre, que me lapidou. Nilton percebia, trabalhava e valorizava os detalhes: a postura, a posição da mão durante a apresentação, o sorriso e o controle da ansiedade. E mexia em tudo isso.
Eu devo muitas coisas a Nilton Travesso. Tudo chegava através de um bom conselho, de uma conversa carinhosa. Pode parecer bobagem, mas até dicas de como se vestir, do que assistir e ler, de destinos para as férias e, principalmente, a importância de uma reserva financeira. Nilton foi muito mais do que um diretor. Foi um amigo que fez questão de passar tudo o que a vida lhe ensinou. E não falo somente no campo profissional, mas principalmente do homem que valorizava a família e as amizades.
Uma ligação definitiva
Em 2017, aceitei o desafio de integrar a equipe de direção e conteúdo do Domingão do Faustão. Ou seja, troquei o vídeo pelos bastidores. Seis anos depois, toca meu celular e do outro lado estava Nilton Travesso. Ficamos quase uma hora conversando. Ele ligou para dizer que errou ao deixar eu sair do vídeo e da crítica da televisão e pediu para que eu voltasse para a frente das câmeras e para o jornalismo de entretenimento.
Dois dias depois do fim dessa conversa, comuniquei a Faustão e ao diretor Cris Gomes que não renovaria meu contrato previsto para encerrar em cinco meses. Mas, antes disso, o programa terminou e segui na Band para colocar as reprises no ar, uma vez que parte da equipe foi transferida para o Melhor da Noite e outra deixou e emissora. Nilton orientou a investir na internet e no Youtube e a voltar para a TV aberta. E estou aqui.
Nilton Travesso deixará saudades, mas estará sempre vivo em cada decisão que eu tomar em minha carreira. Obrigado, mestre.
José Armando Vannucci é um jornalista e escritor com mais de 35 anos de carreira dedicada à cobertura e análise da televisão. Destacou-se na Jovem Pan e em programas da TV Gazeta, TV Globo e Band, consolidando-se como referência no setor ao integrar o júri do Troféu Imprensa, no SBT, e ao lançar, em parceria com Flávio Ricco, a obra "Biografia da Televisão Brasileira". Atualmente, o Canal do Vannucci é seu espaço para compartilhar novidades sobre os bastidores do universo televisivo.
Todos os textos