Quem Ama Cuida acerta nos tapas, mas repete recursos
Cena entre Adriana e Pilar resgata um clássico das novelas, mas a direção precisa evitar a repetição de soluções visuais.
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A cena de Quem Ama Cuida em que Adriana parte para cima de Pilar e dá tapas na vilã resgata um dos recursos mais tradicionais da teledramaturgia brasileira. A mocinha que enfrenta a antagonista e a humilha diante de uma situação de confronto é uma fórmula que já apareceu em diversas novelas. E, quando bem utilizada, continua funcionando muito bem. O público gosta desse tipo de acerto de contas. Afinal, poucas situações provocam tanto impacto dramático quanto ver uma personagem que sofreu nas mãos da vilã finalmente reagir. O tapa na cara carrega um simbolismo de humilhação e confronto que dispensa grandes explicações.
O problema, no entanto, não está na cena em si, mas na maneira como Quem Ama Cuida vem construindo determinadas sequências. A novela tem qualidade técnica, boas interpretações e uma direção artística cuidadosa, mas começa a dar sinais de repetição de recursos que já foram apresentados anteriormente.
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A direção de Quem Ama Cuida precisa buscar novos caminhos
A sequência envolvendo Adriana e Pilar chama a atenção pela realização visual. O jogo de luzes, os enquadramentos, os olhares e a construção do suspense mostram o cuidado da direção artística, comandada por Amora Mautner. É uma produção de alto padrão, com uma fotografia que valoriza os momentos de tensão.
Entretanto, uma novela não pode transformar cada situação importante em uma sequência com a mesma linguagem cinematográfica. O olhar de Adriana em destaque no elevador, a porta que se abre, o suspense construído pela movimentação da câmera e a personagem que avança silenciosamente pelo ambiente são elementos que já apareceram em outros momentos de Quem Ama Cuida.
O recurso funciona uma vez, pode funcionar novamente, mas perde parte de sua força quando se torna previsível. A dramaturgia precisa surpreender não apenas pelo que acontece com os personagens, mas também pela maneira como cada situação é apresentada ao telespectador.
O suspense funciona, mas a repetição incomoda
Na sequência do apartamento de Pilar, Adriana consegue entrar no imóvel, circular pelo ambiente e se aproximar da rival sem que ninguém perceba sua presença. É uma construção que naturalmente cria expectativa e prepara o público para o confronto.
Há, porém, questões que merecem atenção. Como uma personagem consegue entrar com tanta facilidade em um apartamento de alto padrão? É possível aceitar que tenha conseguido contornar a segurança do prédio, mas a novela precisa encontrar maneiras convincentes de sustentar essas situações.
Mais do que isso, a movimentação silenciosa de Adriana, a exploração dos ambientes e o suspense criado pelos olhares remetem a soluções que a própria novela já utilizou. A cena pode ser bonita, tecnicamente bem executada e eficiente para prender a atenção, mas isso não significa que precise repetir uma fórmula conhecida. O telespectador também percebe quando uma produção começa a recorrer aos mesmos mecanismos para construir tensão.
O tapa na cara entrega o que o público queria ver
Se a construção visual apresenta ressalvas, o confronto entre Adriana e Pilar tem um mérito evidente. A reação da mocinha diante da vilã oferece ao público um momento de enfrentamento que faz parte da tradição das novelas. É aquele tipo de sequência que provoca comentários, repercute nas redes sociais e alimenta a expectativa pelos próximos capítulos.
O clichê, quando bem utilizado, não é um defeito. Pelo contrário, pode ser um dos ingredientes mais eficientes de uma boa história. A questão é encontrar o equilíbrio. Uma novela precisa saber quando recorrer aos elementos clássicos da dramaturgia e quando apresentar novas soluções para manter o interesse do público.
Uma novela de qualidade precisa continuar surpreendendo
Quem Ama Cuida reúne ingredientes importantes para uma boa novela. O texto tem força, as interpretações sustentam os conflitos e a direção artística demonstra cuidado com a construção das cenas. Amora Mautner entrega uma produção visualmente elaborada, capaz de transformar momentos cotidianos da trama em sequências de grande impacto.
Justamente por isso, vale o alerta. Uma produção com tantos acertos não precisa insistir nos mesmos recursos para demonstrar qualidade. A fotografia pode continuar impecável, os enquadramentos podem seguir valorizando os personagens e o suspense pode permanecer como uma ferramenta importante, desde que a narrativa encontre novos caminhos. Há espaço para variar a linguagem, surpreender o telespectador e evitar que soluções inicialmente eficientes se transformem em fórmulas previsíveis.
O desafio de Quem Ama Cuida é preservar a qualidade sem cair na repetição. Porque uma boa cena chama a atenção, mas uma novela realmente envolvente precisa continuar surpreendendo a cada capítulo.
José Armando Vannucci é um jornalista e escritor com mais de 35 anos de carreira dedicada à cobertura e análise da televisão. Destacou-se na Jovem Pan e em programas da TV Gazeta, TV Globo e Band, consolidando-se como referência no setor ao integrar o júri do Troféu Imprensa, no SBT, e ao lançar, em parceria com Flávio Ricco, a obra "Biografia da Televisão Brasileira". Atualmente, o Canal do Vannucci é seu espaço para compartilhar novidades sobre os bastidores do universo televisivo.
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