A televisão brasileira passou alguns anos tentando entender o que estava acontecendo com as novelas. As audiências caíam, parte do público migrou para as séries e, diante desse cenário, a Globo começou a testar novos formatos. Menos capítulos, menos personagens, histórias mais enxutas e uma narrativa que, em muitos momentos, buscava inspiração nas séries.
Só que o resultado de algumas novelas mostrou que talvez o caminho estivesse justamente em outro lugar. Produções como Vai na Fé e Três Graças revelaram que existe ainda um público disposto a acompanhar uma boa história quando ela entrega os elementos clássicos do folhetim. E a Globo percebeu isso.
A emissora começou a resgatar a novela como novela. Romance, conflito, mocinho, vilã, reviravolta e suspense. Ou seja, tudo o que leva o público esperar pelo capítulo seguinte. E um dos elementos mais importantes nessa retomada é a trilha sonora.
Trilha sonora em destaque
A música voltou a ter função dramática. Por Você e Quem Ama Cuida exemplificam muito bem isso. A música não está ali apenas para preencher uma cena. Ela ajuda a contar a história, identifica personagens, marca casais, cria clima e conduz a emoção do público. A música revela desejo, aproximação, tensão e romance.
A noite de amor de Dora e André, em Quem Ama Cuida, mostra exatamente como uma boa trilha sonora ajuda a contar a história. Foi uma sequência muito bem construída, quente sem precisar ultrapassar nenhum limite. A coreografia dos dois, os movimentos de aproximação e afastamento, a troca de posições, o jogo através do vidro e a maneira como os corpos dialogavam davam à cena quase uma linguagem de tango. E “I Say a Little Prayer” substituiu a fala dos dois personagens. A música contou a história.
Esse recurso não é novidade na teledramaturgia brasileira. Manuel Carlos, por exemplo, sempre teve uma relação muito forte com as trilhas sonoras de suas novelas. Ele fazia questão de participar das escolhas porque sabia que uma música poderia ajudar a construir uma personagem, um casal ou até mesmo uma crônica inteira.
Mudanças de mercado
Durante as décadas de 1980 e 1990, a trilha sonora era parte fundamental do fenômeno da novela. O público esperava pelo LP com as trilhas nacional e internacional. O artista torcia para sua canção ser escolhida, afinal, ao tocar todas as noites na novela de sucesso, seria executada nas rádios, os shows ficariam lotados e muitos discos vendidos.
Com a chegada das plataformas digitais, a lógica mudou. A indústria fonográfica deixou de ter aquela mesma relação com a televisão e a trilha sonora perdeu parte de sua importância comercial. Durante algum tempo, chegou-se a imaginar que não seria mais necessário investir tanto nesse elemento.
Só que a novela mostrou novamente que música também é narrativa. Quando uma trilha é bem escolhida, ela cria memória afetiva, ajuda a vender o romance, reforça a torcida pelo casal e faz com que uma cena permaneça na lembrança do telespectador.
No fundo, a Globo parece ter entendido uma coisa muito simples. Não era preciso reinventar a novela o tempo inteiro. Era preciso lembrar por que as pessoas gostavam tanto de novela.E a trilha sonora é, sem dúvida, uma das peças fundamentais desse reencontro com o folhetim.
