O SBT completa 45 anos nesta quarta-feira (19/08). Ao longo dessas quatro décadas e meia, a TV de Silvio Santos construiu uma identidade muito própria. Uma televisão provocativa, popular, alegre e, principalmente, capaz de surpreender. Silvio entendia que TV precisa criar hábito, mas também quebrar o costume quando fosse necessário. Essa talvez seja uma das maiores lições deixadas por ele.
Silvio Santos mudava horários, testava formatos, alterava programas e buscava novas combinações de grade sempre que percebia uma oportunidade. O Programa Livre, por exemplo, passou por inúmeras mudanças. A lógica era simples: se alguma coisa não estava funcionando, era preciso mexer rapidamente. E isso durante praticamente toda a trajetória do SBT.
Ao ganhar a concessão dos canais que antes pertenciam a TV Tupi, Silvio Santos assumiu o compromisso de manter os profissionais da antiga emissora e acabou descobrindo ali grandes talentos que ajudariam a construir sua televisão. Mas, contou também com a equipe que já trabalhava com ele em seus programas.
Primeiras apostas
Silvio Santos sempre foi um empresário atento ao que o público desejava e, portanto, conhecedor do que poderia funcionar na TV. Por isso, assim que pode apostou nas novelas nacionais, afinal, contava com muitos artistas que brilharam nas tramas da TV Tupi. Além disso, estavam ali diretores e produtores dessa teledramaturgia. Mas, como bom observador, em suas viagens internacionais viu as cores, tons e intensidade da televisão latino-americana. Elementos que agradariam em cheio o brasileiro e faziam o contraponto ao estilo mais sóbrio da Globo.
Silvio Santos apostou nas novelas mexicanas e trouxe o sucesso Os Ricos Também Choram. A trama se transformou em fenômeno e atingiu altos índices de audiêmncia. Logo depois, veio Chaves, que entrou para a história da televisão brasileira. A série mexicana conquistou a garotada e criou em pelo menos três gerações o hábito de assistir TV aberta. Foi assim também com a programação infantil. Mara, Eliana, Angélica, Mariane, Sérgio Mallandro e tantos outros nomes fizeram parte de uma estratégia que transformou as manhãs e tardes da emissora.
E Silvio ainda encontrava maneiras de brincar com a própria fórmula. Enquanto havia uma programação infantil com apresentadoras jovens e uma atmosfera mais delicada, aparecia Sérgio Mallandro com a “Hora do Capeta”, quase como um contraponto àquela televisão. Era a provocação dentro da própria grade.
Povo em primeiro lugar
Essa capacidade de Silvio Santos entender o público fez o SBT criar uma torcida que permanece até hoje. A Globo construiu sua força durante décadas muito baseada na ideia de um grande elenco de estrelas quase inatingíveis. O SBT seguiu por outro caminho. A emissora era associada aos seus grandes comunicadores. Silvio Santos, Gugu, Hebe Camargo, Moacyr Franco, J. Silvestre e tantos outros profissionais fizeram o público criar uma relação quase pessoal com a televisão.
Mas existe uma história pouco lembrada quando se fala de Silvio Santos. Ele também ajudou a transformar o jornalismo da televisão brasileira. Foi no SBT que Boris Casoy ganhou espaço para fazer um telejornal com opinião e personalidade. O TJ Brasil rompeu com um modelo mais tradicional e mostrou que um âncora poderia comentar, analisar e participar diretamente da construção da notícia.
Ao mesmo tempo, o Aqui Agora apresentava um jornalismo completamente diferente, com câmera nervosa, linguagem popular e repórteres próximos da notícia. Silvio entendeu que os dois formatos poderiam conviver. Depois vieram TJ São Paulo, TJ Noite, Lilian Witte Fibe, Carlos Nascimento, Hermano Henning, Rachel Sheherazade, Joseval Peixoto e tantos outros profissionais.
A Regra é não ter regra
Silvio Santos tinha uma regra que valia para tudo no SBT. Se funcionasse, continuava. Se não, mudava. Às vezes, no dia seguinte. Além disso, defendia que o maior erro de uma emissora de televisão era prender um artista ou apresentador com um contrato de longa duração. Pra que segurar alguém seduzido por outra proposta? É claro que Silvio Santos fazia questão de ter por perto os grandes talentos, mas sabia como poucos o custo de manter um profissional na geladeira. Como empresário ele via o seu dinheiro gasto sem um retorno no vídeo. Como artista compreendia muito bem a frustração de não estar atuando.
A observação permanente é a maior herança de Silvio Santos para o SBT, que completa 45 anos nesta quarta-feira. Atualmente, com formatos internacionais protegidos por direitos, contratos e regras que tornam impossível simplesmente assistir a um programa no exterior, copiar e colocar no ar, o desafio é outro. É preciso viajar, frequentar feiras, acompanhar tendências e entender o que o público está consumindo. Tudo isso com olhar atento, na visão do telespectador.
Foi assim que Silvio enxergou o reality show. Ele conhecia o Big Brother, mas não acreditava que simplesmente colocar anônimos dentro de uma casa seria suficiente para o SBT. Então criou sua própria versão, com celebridades, e nasceu Casa dos Artistas. Estava ali um formato com elementos brasileiros que os criadores da Endemol não pensaram, afinal, na Europa e Estados Unidos, o público gostava de acompanhar as pessoas comuns no confinamento. Ou seja, Silvio provou que um formato pode funcionar maravilhosamente em outro país, mas só terá força no Brasil quando ganhar a nossa personalidade. O plágio foi provado, Casa dos Artistas saiu do ar, mas a lição permaneceu.
O futuro do SBT passa exatamente por isso
Daniela Beyruti e toda a direção do SBT terão pela frente a missão de olhar para esse legado. Não se trata de repetir programas, quadros ou fórmulas do passado. Trata-se de preservar a capacidade de surpreender. O SBT precisa continuar entendendo seu público, olhando para o todo, tomando decisões rápidas e, principalmente, permitindo-se errar. E existe algo que talvez seja ainda mais importante: não levar a televisão tão a sério a ponto de esquecer de brincar com ela. O SBT sempre soube fazer isso.
As comemorações dos 45 anos, com documentários, programas especiais e novidades que devem chegar até o fim do ano, são importantes. A emissora também trabalha numa grade para 2027 que prevê continuidade dos investimentos em esporte, uma tentativa de retomada da dramaturgia e uma linha de shows forte, popular e alegre. Mas o maior desafio não está na grade. Está na essência.
Para chegar aos 90 anos, o SBT terá que continuar sendo aquilo que Silvio Santos ensinou durante 45 anos. Fazer uma televisão que olha para o público, entende o telespectador, arrisca, muda quando precisa e nunca perde a capacidade de surpreender. Esse é o verdadeiro legado de Silvio Santos. E talvez seja também o melhor caminho para o SBT continuar existindo por mais 45 anos.
