O cancelamento, em cima da hora, do debate presidencial que a Globo realizaria nesta quinta-feira é mais do que um episódio envolvendo candidatos, decisões judiciais e regras eleitorais. O que aconteceu essa noite expõe uma mudança importante no cenário da comunicação brasileira. A televisão, que durante décadas ocupou um espaço central na disputa eleitoral, já não parece ter a mesma força para convencer candidatos de que estar diante das câmeras é indispensável.
A Globo havia preparado o tradicional encontro entre os candidatos para a reta final do primeiro turno. Lula já havia informado que não participaria e optou, no mesmo horário, por uma entrevista ao Flow Podcast. Flávio Bolsonaro, que inicialmente participaria, também desistiu ao saber que a emissora não poderia mostrar o púlpito vazio. Paralelamente, decisões do Judiciário alteraram regras previamente estabelecidas para o debate. Diante desse conjunto de fatores, a Globo decidiu cancelar o programa.
Portanto, a questão que merece análise. Durante muito tempo, um debate na televisão aberta era um compromisso praticamente obrigatório para quem disputava a Presidência da República. O mesmo valia para as eleições estaduais e municipais. Não participar significava abrir mão de uma oportunidade enorme de falar com milhões de brasileiros e, principalmente, de enfrentar adversários diante do eleitor.
Hoje, a lógica mudou.
Com a chegada das plataformas digitais, os partidos perceberam que podem escolher o ambiente onde seus representantes aparecerão. Além disso, selecionam o formato, controlam melhor a narrativa e conversam diretamente com um público que já possui interesse naquele conteúdo. A entrevista em um podcast oferece uma dinâmica completamente diferente daquela de um debate tradicional. Não existe necessariamente o mesmo confronto, a mesma imprevisibilidade ou a mesma exposição ao adversário.
Um formato não substituiu definitivamente o outro. Mas, é impossível ignorar o sinal que está sendo dado. Quando um candidato prefere um podcast a um debate na emissoras de televisão de maior audiência do país, alguma coisa mudou na percepção sobre o poder da TV. E isso não acontece apenas com a Globo. Nas últimas semanas, outros debates presidenciais enfrentaram dificuldades para reunir os principais candidatos. O organizado pelo pool de veículos O Momento da Decisão, por exemplo, cancelado após Lula e Flávio Bolsonaro não confirmarem presença.
A televisão perdeu importância
A televisão perdeu importância? Ou perdeu a capacidade de oferecer formatos que dialoguem com o novo comportamento do público? Talvez tenhamos um pouco das duas coisas.
A televisão continua chegando a milhões de brasileiros, mas deixou de ser o único lugar onde uma candidatura pode construir uma comunicação de massa. Hoje existe YouTube, podcast, redes sociais, transmissões próprias e uma infinidade de ambientes digitais capazes de reunir públicos extremamente segmentados. Entretanto, existe uma vantagem estratégica nesses novos formatos: o candidato escolhe onde entra, com quem conversa e, muitas vezes, em quais condições a conversa acontece.
A televisão aberta, ao contrário, construiu sua força justamente na capacidade de colocar pessoas diferentes diante do mesmo conteúdo. O debate presidencial era um dos maiores exemplos disso. Desde a redemocratização, os debates eleitorais fizeram parte da história política brasileira. Foram momentos de confronto de ideias, propostas, estratégias e, muitas vezes, de respostas inesperadas. Milhões de brasileiros acompanharam esses encontros para conhecer melhor os candidatos. Além disso, decidir o voto.
Interferências
A decisão da Globo em cancelar o debate presidencial previsto para a noite desta quinta-feira foi tomada após duas notificações judiciais alterando as regras do evento. Entretanto, importante destacar que a dinâmica, formato e regras de um debate surgem após longas reuniões com os representantes dos partidos. Depois de um acordo com o aval dos advogados dos partidos e das emissoras de TV, documento encaminhado a cada um. E um tempo para responder ao convite. Pura formalidade, afinal tudo acertado na reunião.
Nesta quinta-feira, a ministra Stella Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, atendeu a um pedido da coligação da candidatura de Lula e tornou inválido o item das regras do debate que trata de candidatos ausentes. Ou seja, não poderia ficar no palco um púlpito vazio, muito menos fazer perguntas a quem não participasse. Logo depois, Globo notificada sobre a decisão do o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Ele atendeu a um pedido feito pelo partido Solidariedade para a participação no debate de Renan Santos, do Missão.
Ou seja, boa parte do acertado anteriormente entre Globo e os partidos passou a não valer mais. Trata-se de um desrespeito ao jornalismo e, principalmente, ao eleitor. o qual o político já descobriu que pode falar diretamente com o eleitor?
LEIA O COMUNICADO DA GLOBO
A Globo recebeu há pouco duas notificações relacionadas à realização do debate presidencial programado para esta noite, que interferem nas regras previamente acordadas, e decidiu por seu cancelamento.
A primeira é assinada pela ministra Stella Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, e atende a um pedido da coligação da candidatura de Lula, do PT, à Presidência do Brasil. A decisão torna inválido o item das regras do debate que trata de candidatos ausentes. A ata com as regras, assinada por todos os partidos, inclusive o PT, determina que, em caso de ausência do candidato, o púlpito reservado a ele seja mantido vazio no cenário, com uma placa que o identifique. E que, numa das rodadas de tema livre do debate, os candidatos presentes que assim desejarem formulem, em trinta segundos, o que fariam ao candidato que não compareceu. A decisão da ministra Stella Aranha proíbe o púlpito com o nome de Lula e a formulação das perguntas que seriam feitas a ele.
A segunda notificação recebida pela Globo esta noite é de uma decisão proferida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e atende a um pedido feito pelo partido Solidariedade a respeito da participação no debate de Renan Santos, do Missão. As regras que estabelecem que candidatos devem ser obrigatoriamente convidados para debates em rádio e TV são determinadas por lei e reguladas por portaria do Tribunal Superior Eleitoral: devem ser convidados obrigatoriamente os candidatos de partidos com representação de pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional. Em atendimento a essa regra, a Globo convidou para o debate os candidatos: Augusto Cury, do Avante; Flavio Bolsonaro, do PL; Ronaldo Caiado, do PSD; e Lula, do PT.
Uma outra decisão, do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, na terça-feira, alterou entendimento do próprio TSE na contagem de parlamentares no Congresso para fins de debate e decidiu que Romeu Zema, do Novo, teria direito de participar do debate. E a decisão do ministro Gilmar Mendes, do STF, proferida há pouco, determinou a participação do candidato Renan Santos no debate, mesmo o Missão, partido de Renan, tendo apenas um parlamentar no Congresso Nacional.
A Globo tem longa tradição na organização de debates eleitorais. Nosso propósito é promover a discussão de ideias para o Brasil e oferecer aos eleitores a oportunidade de comparar projetos. Nosso dever é o de promover a democracia, mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais. Por essa razão, a Globo decidiu cancelar o debate desta noite. No horário, o capítulo inédito da novela Quem Ama Cuida.
