InícioColunasColuna do VannucciQuem Ama Cuida: novela boa não precisa fugir do melodrama

Quem Ama Cuida: novela boa não precisa fugir do melodrama

Capítulo que marcou a virada de Adriana em Quem Ama Cuida uniu texto clássico, direção sofisticada e grandes interpretações

Uma boa novela precisa surpreender o público e Quem Ama Cuida tem feito muito bem isso. Não pode ser linear, previsível, sem altos e baixos ou sem aqueles momentos em que o telespectador escolhe de que lado quer ficar. E, principalmente, deixar claro que uma mocinha só funciona de verdade quando existe uma vilã forte o suficiente para enfrentá-la. Foi exatamente isso que Quem Ama Cuida entregou no capítulo desta segunda-feira (28/09), mais uma noite de grande virada na história.

A novela de Walcyr Carrasco e Claudia Souto recuperou uma característica que parecia esquecida em boa parte da dramaturgia atual: o prazer de contar uma história. Temos uma mulher condenada injustamente, que precisa provar sua inocência, uma vingança cuidadosamente construída e uma vilã que não aceita perder o poder. É o folhetim clássico, aquele que provoca expectativa e faz o público terminar um capítulo querendo imediatamente saber o que acontecerá no seguinte.

A revelação de que Adriana é sócia da joalheria Brandão virou a história de cabeça para baixo. A informação surpreendeu personagens e abriu novas possibilidades para a trama. E da forma como o capítulo foi construído prendeu o telespectador do primeiro ao último minuto. Logo depois da revelação, Pilar chega ao limite, derruba tudo que está na mesa do escritório da joalheria e mostra aquela fúria que o telespectador reconhece imediatamente como uma grande cena de novela. E aqui está uma das grandes virtudes de Quem Ama Cuida. A novela não tem vergonha de ser novela.

O capítulo desta segunda-feira foi além

O capítulo desta segunda-feira de Quem Ama Cuida trouxe diálogos construídos para produzir reação. Os suspenses assumidos. A luz que se apaga, a revelação, a festa, a entrada dos personagens, a vilã explodindo de raiva. Ou seja, tudo está ali. E funciona porque existe uma história sustentando cada recurso.

A diretora Amora Mautner entendeu que era possível manter todos os elementos do folhetim clássico e, ao mesmo tempo, acrescentar uma camada visual mais sofisticada. O resultado foi praticamente uma obra de cinema sem deixar de ser novela. E essa diferença é fundamental. Não precisamos transformar uma novela em série para dizer que estamos fazendo televisão de qualidade. Aliás, talvez um dos grandes equívocos da dramaturgia contemporânea tenha sido acreditar que novela precisa abandonar sua identidade para parecer moderna. Ou seja, o que queremos é novela bem feita. Queremos melodrama, emoção, vilã, mocinha, vingança, revelação, suspense e aquela vontade quase irresistível de assistir ao capítulo seguinte. Ou seja, o que muda é a maneira de filmar, dirigir e interpretar tudo isso.

Pilar observa Adriana
Reflexo nos óculos foi detalhe precioso da direção de Amora Mautner. Foto: Reprodução Globo

Um dos momentos que mais chamaram minha atenção foi a movimentação da câmera durante a festa. Ela circula pelo ambiente, acompanha personagens, registra chegadas e cria uma sensação de continuidade que exige muito mais do que simplesmente apertar o botão da câmera. E fazer isso exige ensaio, marcação e precisão. Em determinados momentos, a câmera percorre o espaço durante longos trechos, com cortes muito bem planejados. Um erro de interpretação ou de marcação pode obrigar a equipe a refazer toda a sequência.

Dramaturgia de qualidade

A revelação de que Adriana é a nova sócia da joalheria mostra que novela vai muito além do trabalho individual. Walcyr Carrasco e Claudia Souto escreveram o capítulo. Amora Mautner encontrou uma maneira de potencializar esse texto visualmente. Além disso, o elenco respondeu à proposta. Todo mundo parecia entender exatamente qual era o tom daquele capítulo. Havia uma intensidade a mais na interpretação uma fúria um pouco maior. Mas, isso não é defeito.

Quando Pilar empurra objetos, destrói coisas e demonstra sua revolta, estamos diante da clássica cena de vilã. E ela funciona justamente porque a novela não tenta esconder que aquilo é um melodrama. Talvez esteja aí uma discussão importante para a dramaturgia brasileira. Entretanto, não existe problema algum em assumir o folhetim. Não existe vergonha em usar clichês quando eles são bem escritos e bem executados. O clichê só fica ruim quando é tratado sem criatividade ou sem verdade.

Quem Ama Cuida está mostrando que é possível fazer a novela clássica com uma embalagem sofisticada. E essa combinação pode ser muito mais poderosa do que simplesmente tentar reproduzir a estética das séries. Não é preciso reinventar a roda. Walcyr Carrasco e Claudia Souto estão mostrando isso na prática. Façam novela. Assumam o melodrama. Não tenham medo dos clichês. Contem bem a história. Entretanto, depois encontrem um diretor capaz de transformar tudo isso em imagem.

Expectativas da semana

E, pelo que o capítulo preparou, a expectativa para terça, quarta e os próximos dias é enorme. Se a trama mantiver esse ritmo, será uma semana importante para Quem Ama Cuida também na audiência. Vamos acompanhar os números, claro. Mas, antes deles, existe uma coisa que a televisão não pode perder de vista: quando uma novela consegue fazer o telespectador torcer, vibrar, se irritar e querer voltar no dia seguinte, ela cumpriu sua principal missão.

Últimas

Veja também

José Armando Vannucci
José Armando Vannuccihttps://www.canaldovannucci.com.br
José Armando Vannucci é um jornalista e escritor com mais de 35 anos de carreira dedicada à cobertura e análise da televisão. Destacou-se na Jovem Pan e em programas da TV Gazeta, TV Globo e Band, consolidando-se como referência no setor ao integrar o júri do Troféu Imprensa, no SBT, e ao lançar, em parceria com Flávio Ricco, a obra "Biografia da Televisão Brasileira". Atualmente, o Canal do Vannucci é seu espaço para compartilhar novidades sobre os bastidores do universo televisivo.