Aposta na dramaturgia expõe desafio dos programas de auditório
Produtores dos programas de auditório percebem que Globo tem na dramaturgia suas maiores apostas.
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A Globo está deixando cada vez mais claro qual será sua principal aposta para os próximos anos. A dramaturgia ocupará um espaço ainda maior na programação da emissora, com novelas inéditas, reprises e produções exclusivas para o Globoplay. Enquanto isso, os programas de auditório enfrentam o desafio de reconquistar um público que encontra cada vez mais opções de entretenimento no ambiente digital.
O planejamento para 2027 dá uma dimensão dessa estratégia. Além das tradicionais novelas das 18h, das 19h e das 21h, a emissora prepara novas faixas de dramaturgia, incluindo uma produção prevista para a faixa das 22h30. Além disso, tem investimento em novelas para o Globoplay. A oferta de séries também continuará crescendo, com novas temporadas de produções já conhecidas e projetos de diferentes gêneros.
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Não é apenas uma decisão de programação. É uma estratégia de negócio que considera o comportamento do público, o valor dos conteúdos ao longo do tempo e as possibilidades de exploração comercial de cada produção.
Globo quer novelas em praticamente todas as faixas
A partir de maio de 2027, depois do encerramento do Big Brother Brasil, a programação da Globo vai abrir ainda mais espaço para a dramaturgia. Somadas as produções inéditas, resgates à tarde e as reprises exibidas durante a madrugada, a emissora vai oferecer oito novelas em diferentes horários. É um volume expressivo de dramaturgia, que demonstra como a Globo pretende fortalecer um dos seus principais patrimônios.
E existe uma lógica nessa escolha. Uma novela não precisa terminar sua trajetória comercial quando acaba a exibição na TV aberta. Anos depois, pode ser recuperada pelo streaming, conquistar novos públicos e despertar o interesse de quem deseja rever uma história que marcou época. Além disso, pode voltar ao ar no Edição Especial ou Vale a Pena Ver de Novo. Tem a possibilidade de vendas internacionais e também para plataformas de streaming.
O mesmo raciocínio vale para séries, minisséries e outras produções de ficção. Quanto maior a qualidade e a capacidade de atrair o público, maior pode ser a vida útil daquele conteúdo.
Dramaturgia virou um ativo estratégico para a Globo
A aposta em novelas e séries não se resume à audiência do momento. A Globo trabalha com conteúdos que podem circular por diferentes plataformas, alcançar públicos distintos e permanecer relevantes por muitos anos. Mas, também existe um componente comercial importante. Conteúdos reconhecidos pela qualidade e capazes de manter o interesse do público ajudam a valorizar o catálogo e podem ampliar as oportunidades de relacionamento com anunciantes e assinantes.
A dramaturgia, portanto, não é apenas uma tradição da Globo. É uma forma de construir patrimônio audiovisual e manter a marca presente na vida do telespectador, independentemente de onde ele escolha assistir. Além disso, não podemos esquecer que foram as novelas que projetaram a Globo no mercado internacional e a colocaram entre as maiores emissoras do mundo.
Programas de auditório precisam sair da zona de conforto
Se a dramaturgia tem um caminho relativamente claro, o entretenimento enfrenta questões mais delicadas. Os programas de auditório continuam importantes para a TV aberta, mas precisam rever formatos, quadros e estratégias. Não se trata de decretar o esgotamento desse modelo, e sim de reconhecer que parte das atrações oferece fórmulas conhecidas demais para um público que mudou seus hábitos de consumo.
A concorrência não está apenas nas outras emissoras. Está também nas plataformas digitais, nos filmes disponíveis sob demanda, nas séries que permitem maratonas e nas novelas antigas que voltam a despertar interesse. Ou seja, os clássicos programas de auditório não concorrem entre si. Eles perdem cada vez mais público para a dramaturgia de qualidade, seja novela ou série, oferecida nos serviços de streaming.
O telespectador não precisa mais esperar o que a TV oferece. Pode escolher o que assistir, quando assistir e em qual dispositivo. Esse comportamento ajuda a explicar por que atrações tradicionais precisam encontrar novas maneiras de surpreender. O que funcionava muito bem há alguns anos pode não ter a mesma força diante de uma audiência que dispõe de tantas alternativas.
A Globo já começa a fazer ajustes nessa direção. O Domingão com Huck, por exemplo, não deverá recorrer novamente ao quadro de competição que reúne crianças com habilidades extraordinárias. A emissora avalia o desempenho de seus formatos e precisa decidir quais merecem continuar, quais devem ser reformulados e quais perderam espaço.A Dança dos Famosos, por sua vez, segue como uma das apostas de entretenimento para o programa.
Audiência do Domingão mostra o tamanho do desafio
Os números ajudam a dimensionar a transformação do mercado. O Domingão com Huck registra, em determinados períodos, médias na faixa dos 12 a 14 pontos na Grande São Paulo. Em outros momentos da história da televisão brasileira, atrações dominicais da Globo alcançavam índices bem superiores. A comparação entre épocas diferentes exige cuidado, porque o número de televisores ligados, a fragmentação da audiência e os hábitos de consumo mudaram. Ainda assim, a queda evidencia o desafio de manter a mesma capacidade de mobilização de antes.
Parte da disputa acontece fora da televisão convencional. Enquanto a Globo exibe seus programas, o público também pode escolher filmes, séries e novelas disponíveis no ambiente digital. É nesse cenário que o entretenimento precisa se reinventar. Não basta reunir artistas conhecidos, investir em cenários grandiosos e repetir quadros que já deram resultado. É necessário oferecer algo que faça o telespectador querer acompanhar a atração naquele momento.
Jornalismo, dramaturgia e esporte concentram a força da televisão
O comportamento do público aponta para três grandes frentes que continuam capazes de mobilizar a audiência. A primeira é o jornalismo. Em momentos importantes, o telespectador procura informação atualizada, cobertura ao vivo e explicações sobre acontecimentos que afetam sua vida.
A segunda é a dramaturgia. Novelas e séries oferecem histórias que despertam emoções, criam vínculos com personagens e estimulam conversas nas redes sociais. É um tipo de conteúdo que pode ser consumido tanto na televisão aberta quanto no streaming e em formatos adaptados para o ambiente digital.
A terceira é o esporte, especialmente em grandes eventos. Futebol, Olimpíadas e Copa do Mundo mobilizam torcedores que desejam acompanhar os acontecimentos em tempo real. Nesse caso, o caráter ao vivo continua sendo um diferencial importante.
O futuro da Globo passa pela capacidade de se reinventar
A decisão de ampliar a presença da dramaturgia mostra que a Globo reconhece o valor de suas novelas e séries em um mercado cada vez mais fragmentado. São conteúdos que podem circular por diferentes plataformas, conquistar novas gerações e continuar relevantes depois da exibição original. Mas o fortalecimento das novelas não elimina a necessidade de renovar o entretenimento. A emissora precisa encontrar um equilíbrio entre aquilo que já funciona e as experiências que podem despertar o interesse de quem está migrando para o digital.
A Globo sabe que tem nas novelas um dos seus maiores patrimônios. Agora, precisa mostrar que também consegue reinventar seus programas de auditório para acompanhar a transformação do público. O futuro da televisão aberta não depende apenas de produzir mais conteúdo, mas de entender por que as pessoas escolhem assistir a uma atração e o que as faz permanecer diante da tela.
José Armando Vannucci é um jornalista e escritor com mais de 35 anos de carreira dedicada à cobertura e análise da televisão. Destacou-se na Jovem Pan e em programas da TV Gazeta, TV Globo e Band, consolidando-se como referência no setor ao integrar o júri do Troféu Imprensa, no SBT, e ao lançar, em parceria com Flávio Ricco, a obra "Biografia da Televisão Brasileira". Atualmente, o Canal do Vannucci é seu espaço para compartilhar novidades sobre os bastidores do universo televisivo.
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