Existe uma pergunta que movimenta Quem Ama Cuida desde a morte de Arthur Brandão: quem matou o joalheiro? Mas, talvez essa não seja a questão mais interessante da novela neste momento. O que Walcyr Carrasco e Claudia Souto estão construindo vai muito além de um simples mistério policial. A trama discute algo cada vez mais presente na sociedade: a velocidade com que as pessoas são condenadas antes mesmo que as provas apareçam.
De um lado está Ademir. Advogado renomado, respeitado e influente. Um profissional que entende perfeitamente o funcionamento do sistema e que utiliza esse conhecimento para construir uma narrativa praticamente irrefutável. Não importa apenas o que aconteceu. Importa aquilo que as pessoas acreditam que aconteceu. E, para isso, está disposto a colocar muito dinheiro nas mãos de quem poderá ajudá-lo. Do outro lado surge Pedro, que escolhe um caminho mais difícil. Em vez de fabricar certezas, tenta encontrar respostas. Em vez de conduzir testemunhas, busca confrontar versões. E paga um preço alto por isso, principalmente quando seu envolvimento emocional com Adriana passa a ser usado para enfraquecer sua credibilidade. Sim, Ademir conseguirá tirá-lo da defesa justamente por provar um forte interesse emocional.
Onde a novela encontra sua força
A acusação contra Adriana parece ter sido construída sobre um elemento que costuma ser devastador tanto na ficção quanto na vida real: a aparência de culpa. Ela herdou uma fortuna. Estava próxima da vítima. Tinha acesso ao empresário. Para muitos personagens, isso basta. Mas será mesmo?
A pergunta que Quem Ama Cuida provoca é incômoda. Quantas vezes a opinião pública transforma suspeitas em verdades? Quantas vezes uma narrativa bem construída vale mais do que uma investigação bem feita? Ao colocar Ademir e Pedro em lados opostos, a trama cria um embate que ultrapassa os limites do tribunal. O confronto não é apenas entre pai e filho, mas de duas visões de mundo. Um acredita que vencer é o objetivo final. Para isso, suborna até o marido da melhor amiga de Adriana. Tom é o exemplo daqueles que aceitam qualquer trocado por uma palavra. Já Pedro sustenta que sem ética não existe vitória verdadeira.
Pedro não conseguirá impedir a condenação de Adriana. Com isso, Quem Ama Cuida nos traz algo ainda mais provocador: nem sempre a verdade vence primeiro. E talvez seja justamente por isso que o público esteja tão envolvido com a novela. Porque, no fundo, Quem Ama Cuida não está falando apenas sobre um assassinato, mas sobre reputações destruídas e julgamentos apressados. Além disso, o perigo de transformar versões em fatos.
A pergunta continua sendo quem matou Arthur. Mas Quem Ama Cuida nos leva a pensar mais adiante. Quando foi que passamos a considerar alguém culpado antes mesmo do fim do julgamento?
