O mercado audiovisual brasileiro mudou profundamente nos últimos anos. A televisão aberta ganhou novos canais e, principalmente, as plataformas digitais multiplicaram as possibilidades para o telespectador. Se antes era relativamente simples entender para onde migrava a audiência, hoje o comportamento do público é muito mais fragmentado.
Essa transformação também trouxe um desafio importante para a medição de audiência. O modelo tradicional, baseado na identificação do conteúdo por áudio, passou a enfrentar um cenário em que o telespectador tem uma infinidade de alternativas. Em São Paulo, por exemplo, além das principais emissoras abertas, existem outros canais disputando a atenção do público. E isso sem contar a enorme quantidade de canais pagos e serviços de streaming.
Por isso, qualquer análise de audiência precisa levar em consideração esse novo ambiente. Uma eventual queda de audiência de uma emissora não significa necessariamente que o público simplesmente abandonou aquele conteúdo. É preciso entender para onde ele foi, se permaneceu dentro da televisão, se migrou para outra emissora ou se deixou a TV para consumir algum conteúdo em uma plataforma digital.
O desafio do horário político
Essa questão da medição de audiência ganha ainda mais importância durante o horário político. Para compreender de fato o impacto dos programas eleitorais, não basta olhar apenas para os números registrados durante aqueles minutos de propaganda. É fundamental comparar o que acontecia antes e o que ocorre imediatamente depois.
A pergunta é simples, mas a resposta é complexa. Quem estava na Globo permaneceu na Globo durante o horário político? Migrou para o SBT ou para a Record? Deixou a televisão ligada e saiu da frente da tela? Voltou para a programação original depois da propaganda? Ou simplesmente aproveitou aqueles minutos para buscar outra opção de entretenimento? É essa leitura de comportamento que pode mostrar se o horário político realmente agrega audiência ou apenas movimenta o público entre os canais.
No começo de uma campanha eleitoral, existe naturalmente uma curiosidade maior. O eleitor quer conhecer candidatos, propostas e partidos. Com o passar do tempo, porém, essa curiosidade tende a diminuir. E existe uma razão para isso. A propaganda política, muitas vezes, não entrega a informação que o eleitor considera suficiente para decidir seu voto. É aí que debates e sabatinas ganham importância. Em um confronto mais longo, o candidato consegue apresentar ideias, responder perguntas, explicar propostas e, principalmente, mostrar como reage diante de situações que não estavam previamente preparadas. Talvez esteja na hora de os próprios partidos, candidatos e profissionais responsáveis pela comunicação eleitoral reverem conceitos.
Necessidade de mudança
A propaganda política obrigatória movimenta recursos financeiros importantes obtidos a partir de impostos e fundos partidários. Por isso, precisa ser eficiente. Só que o comportamento do público mudou. Hoje, o eleitor pode receber informação pela televisão, pelo rádio, pelo YouTube, pelas redes sociais, pelos portais de notícias, pelos podcasts e por inúmeras outras plataformas.
Nesse cenário, a obrigatoriedade da televisão e do rádio como instrumentos centrais da propaganda eleitoral precisa ser discutida com mais profundidade. Não significa abandonar a televisão ou o rádio, que continuam relevantes, mas entender que a comunicação política precisa acompanhar a transformação do público.
E o mesmo vale para a audiência televisiva. O número continua sendo fundamental, mas já não pode ser analisado isoladamente. Em um mercado cada vez mais fragmentado, audiência não é apenas saber quantas pessoas estavam diante de determinada emissora. É compreender o comportamento desse público, seus deslocamentos e suas escolhas.
