A teledramaturgia é, historicamente, um dos grandes pilares da televisão brasileira. A TV nasceu e cresceu impulsionada pelos programas de auditório e pelos grandes comunicadores, mas foi principalmente através da novela que encontrou uma das formas mais eficientes de criar hábito e fidelidade no telespectador.
Quando a TV Excelsior passou a investir na novela diária, com capítulos exibidos durante toda a semana, ficou claro que havia ali uma fórmula poderosa. Uma história bem construída era capaz de levar o público de volta ao mesmo horário, todos os dias. E havia também uma lógica comercial importante, já que o custo de produção podia ser diluído ao longo de uma semana inteira. Mas, existe algo muito maior por trás disso. O ser humano gosta de histórias. Nossa dramaturgia é milenar. Desde os tempos mais remotos, o homem conta e repassa narrativas. Portanto, é natural que uma história bem contada tenha força para conquistar o público.
E isso não é uma característica exclusiva do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, são as séries que exercem esse papel e conseguem reunir milhões de espectadores. Em determinados momentos, um reality show também pode ocupar esse espaço, mas o que estamos percebendo na televisão moderna, inclusive na brasileira, é uma valorização cada vez maior da boa dramaturgia em seus diferentes formatos.
Audiência em alta
As três novelas inéditas da Globo mostram com muita clareza a força da dramaturgia de qualidade. Nobreza do Amor, Por Você e Quem Ama Cuida vêm encontrando espaço junto ao público e, principalmente, repercutindo. São histórias que recuperam elementos tradicionais do folhetim. O telespectador acompanha a trama, se envolve com os personagens, cria vínculos com os artistas e volta diariamente para descobrir o que vai acontecer.
No SBT, a dramaturgia também voltou a ocupar um papel estratégico. A emissora tem buscado nas novelas da tarde uma maneira de recuperar a atenção de um público que durante muitos anos foi cativo daquela faixa. E, no horário nobre, mesmo sem conseguir neste momento produzir histórias inéditas próprias, mantém a dramaturgia com novelas mexicanas. Essa decisão tem um significado importante. O SBT percebeu que precisava interromper a saída de um público que já demonstrava cansaço com as novelas infantojuvenis.
A Record segue estratégia semelhante. Jesus continua funcionando muito bem à tarde, segurando o público entre o Balanço Geral e o Cidade Alerta. Mas, a emissora mantém sua aposta em produções turcas no horário nobre e prepara novas temporadas de Reis, preservando uma linha dramatúrgica fortemente ligada às histórias bíblicas. Até a Band encontrou espaço com Guerra das Rosas, outra produção turca que merece atenção.
Mais novelas e séries
Quando olhamos principalmente para o horário nobre, percebemos um movimento bastante claro. A dramaturgia de qualidade está conseguindo prender novamente o telespectador diante da televisão. Um exemplo recente foi Guerreiros do Sol, exibida pela Globo na faixa das 23 horas no lugar do Big Brother Brasil. A novela foi muito bem e terminou com 14,1 pontos de média e 29,9% de share.
E existe uma comparação interessante. Depois de Guerreiros do Sol vieram as séries e, principalmente, Pablo e Luizão, exibida às terças e quintas, que fechou com 16,6 pontos e 31,4% do público do horário. Mais uma vez, é a dramaturgia mostrando sua força.
Isso revela uma tendência importante para a televisão brasileira e também para a mundial. Durante o dia teremos jornalismo, variedades e informação. Nos finais de semana, os grandes programas de auditório continuarão fundamentais. Entretanto, o horário nobre precisa conversar com o público através de uma boa dramaturgia. É isso que nos prende.
Streaming não é diferente
E é também a dramaturgia que leva o público da televisão aberta para o digital. Os maiores acessos concentram-se nas séries, filmes e minisséries. A diferença é que no streaming você escolhe quando assistir. Na televisão aberta, o horário é determinado pela emissora. Mesmo assim, quando o produto é bom, o público responde.
Estamos, portanto, diante de um momento em que a teledramaturgia volta a ocupar o lugar de produto premium da televisão. E as emissoras precisam olhar para isso com muita atenção. A Globo, nesse aspecto, larga na frente porque mantém uma estrutura de produção muito forte. Para o próximo ano, além das novelas das seis, das sete e das nove, já existem outros projetos em andamento. Ricardo Linhares escreve uma novela para às 23h e o Globoplay apostará em mais uma trama mais ousada.
Ou seja, são várias frentes de dramaturgia simultaneamente. E talvez esteja aí uma das principais respostas para o futuro da televisão. As emissoras que entenderem que o público não abandonou as boas histórias terão uma vantagem importante. Quem apresentar o melhor produto, construir os melhores personagens e conseguir fisgar emocionalmente o telespectador terá mais chances de vencer essa disputa cada vez mais fragmentada pela audiência.
Porque, no fim das contas, a tecnologia muda, a plataforma muda, o jeito de assistir muda. Mas uma boa história continua sendo uma boa história.
