Quem acompanha Quem Ama Cuida já percebeu que a novela não deve demorar para revelar a identidade do assassino de Arthur Brandão. O grande mistério, no entanto, não está apenas na identidade do assassino. O que realmente promete movimentar a história é a vingança, quem estará ao lado de Adriana e como essa rede de alianças será construída. Esse, aliás, é um traço muito característico de Walcyr Carrasco. Diferentemente de autores que guardam todas as respostas para o último capítulo, ele costuma resolver uma questão, abrir outra, criar novos ganchos e manter a história sempre em movimento. É justamente isso que torna a novela tão envolvente.
Enquanto a revelação definitiva não chega, o autor vai espalhando pistas em cenas aparentemente simples. Vale prestar atenção nos diálogos, nas passagens de tempo, nas reações dos personagens e, principalmente, nas falas de Brigitte, personagem de Tatá Werneck. Ali existem provocações que não estão na novela por acaso. Do outro lado da trama, Isabel Teixeira entrega uma Pilar cada vez mais forte. É a grande vilã da história até aqui, uma personagem que concentra preconceitos, manipula situações e faz questão de humilhar quem considera inferior.
A sequência em que Dina pede ajuda para o neto estudar medicina resume muito bem essa construção. Quando Pilar questiona a qualidade da universidade pública e insinua que agora “entra qualquer um”, a novela não está apenas desenhando uma vilã. Está expondo um pensamento que infelizmente ainda existe em parte da sociedade. É um texto forte, bem escrito e muito bem interpretado. Ao mesmo tempo, a relação entre Pilar e Adriana ganha novas camadas. A protagonista começa a reagir, mas tudo indica que ainda sofrerá antes de equilibrar esse jogo.
A abertura também entrega pistas
Outro detalhe em Quem Ama Cuida merece atenção. A abertura da novela costuma indicar a importância dramática dos personagens. Primeiro aparecem Letícia Colin e Chay Suede , formando o casal central da história. Logo depois, surgem os nomes de Isabel Teixeira, reforçando seu peso como principal antagonista, de Tatá Werneck. É o quarto nome da abertura, posição que dificilmente é ocupada por um personagem secundário.
Isso naturalmente desperta algumas perguntas. Será que Brigitte é a assassina? Será que testemunhou o crime? Ou será que conhece a verdade e conduz a investigação por outro caminho? É um detalhe que pode não significar tudo, mas certamente merece ser observado por quem gosta de montar o quebra-cabeça das novelas. E Walcyr Carrasco gosta de brincar com isso.
Conversando com pessoas ligadas à dramaturgia da Globo, fica claro que Walcyr Carrasco continuará distribuindo pistas ao longo dos próximos capítulos. E muitas dessas pistas também passam pelas escolhas da diretora Amora Mautner.
A direção também faz diferença
O trabalho de Amora Mautner vem recebendo elogios dentro e fora da emissora. Profissionais do audiovisual destacam a qualidade da narrativa visual e o cuidado na construção das cenas. Há momentos em que a imagem complementa o texto de maneira muito eficiente.
Um bom exemplo foi a sequência da saída de Adriana da prisão. A imagem dela colocando parte do corpo para fora do carro poderia parecer apenas um detalhe. Mas a cena traduz exatamente a sensação de liberdade, o reencontro com o vento, com o céu e com a vida que lhe foi tirada durante tanto tempo. É uma solução poética que reforça o que o roteiro pretende contar.
Por tudo isso, Quem Ama Cuida segue estimulando o público a observar cada detalhe. As respostas certamente virão. Até lá, a novela parece decidida a transformar cada capítulo em mais uma peça desse grande quebra-cabeça sobre o assassinato (ou não) de de Arthur Brandão.
