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A medida certa da notícia também é jornalismo

Desaparecimento do helicóptero com o cantor Rick resgata um alerta importante sobre velocidade, apuração e respeito ao público e familiares dos envolvidos no acidente

A disputa pela atenção do telespectador, do internauta, do ouvinte e de quem está do outro lado da tela nunca foi tão intensa. Todo mundo quer o clique, a audiência, a visualização, o compartilhamento. Só que, nessa corrida, existe uma coisa que não pode ser deixada de lado, que é a medida certa da notícia.

Nesta segunda-feira (21/09), logo depois que surgiu a informação de que um helicóptero estava desaparecido com o cantor Rick a bordo, comecei a acompanhar os telejornais. E foi interessante observar como cada emissora tratou o assunto, principalmente porque a notícia chegou justamente num horário em que os programas mais populares estavam no ar. É claro que era preciso informar. A aeronave havia desaparecido com pessoas a bordo numa área de busca considerada complicada.

São informações relevantes, sem dúvida. Mas, o problema começa quando o tom da narrativa transforma uma informação ainda em apuração numa tragédia já consumada. Afinal, existe uma diferença enorme entre dizer que um helicóptero está desaparecido e afirmar, ainda que indiretamente, que uma grande fatalidade aconteceu. Logo depois, no Instagram assisti a um vídeo da esposa de um dos ocupantes. Ela dizia que a família estava apreensiva, principalmente por causa dos filhos, mas que não havia informação concreta sobre o que havia acontecido. E fez um alerta importante aos perfis que estavam reproduzindo a notícia, pedindo cuidado com a forma como a informação estava sendo divulgada.

Esse cuidado não é preciosismo. É jornalismo.

O dia em que a redação escolheu esperar

Lembrei imediatamente de um episódio que vivi na época do acidente da TAM, em São Paulo. O avião havia decolado de Congonhas e caiu naquela região próxima ao Jabaquara. Foi uma tragédia. Eu trabalhava na Jovem Pan e, naquele dia, os repórteres ainda estavam à caminho da redação quando o acidente aconteceu. Ainda não existia a velocidade das redes sociais de hoje, mas uma cobertura como essa exigia uma quantidade enorme de informação e detalhes.

Eu estava na redação coordenando aquele trabalho quando chegou uma informação sobre o destino do voo. Meu diretor de jornalismo perguntou se aquilo estava absolutamente checado. A resposta foi não. Então, determinou que não iria para o ar — mesmo com praticamente todo mundo já divulgando. Mesmo assim, a decisão foi esperar. E, depois, veio a confirmação de que a informação que circulava estava errada. E muita gente precisou corrigir.

Pode parecer um detalhe. Mas, não é. Imagine uma família ouvindo no rádio ou na televisão que o avião estava indo para determinado destino quando, na verdade, voava para outro. Uma família pode entrar em desespero sem necessidade. Outra pode viver alguns minutos de alívio que também não deveriam existir.

E depois? Depois é preciso voltar ao ar para corrigir. Só que aquela primeira informação já produziu seu efeito. É por isso que, no jornalismo, a velocidade nunca pode ser maior do que a certeza.

O algoritmo pede pressa, mas o jornalismo pede confirmação

Hoje vivemos uma era em que tudo precisa ser factual, imediato, impactante. A notícia precisa chegar primeiro. O título chamar atenção. O vídeo precisa prender nos primeiros segundos. O algoritmo alimentado a cada segundo. Acesso gera monetização. Monetização permite investimento. Investimento permite contratar, produzir e ampliar o conteúdo.

Mas existe uma palavra que precisa estar no meio dessa equação: equilíbrio. Você pode ganhar a atenção de alguém hoje e perder a credibilidade amanhã. O jornalismo não pode ser uma fábrica permanente de urgências. Nem toda informação precisa ser transformada em tragédia, muito menos tratada como bomba. Nem tudo precisa ganhar o tom de “você não vai acreditar no que aconteceu”.

Às vezes, a notícia é simplesmente aquilo que aconteceu e ainda não sabemos o resto. E dizer “ainda não sabemos” também informa. Mais do que isso, respeita quem está envolvido.

Está checado

Quando existe um acidente, um desaparecimento, uma morte, uma doença, uma situação de risco, não estamos falando apenas de audiência. Estamos falando de pessoas, famílias e amigos. De gente que muitas vezes está vivendo os minutos mais difíceis da própria vida. Por isso, antes de publicar, antes de narrar, antes de colocar uma informação no ar, é preciso fazer a pergunta que continua fundamental desde os primeiros tempos do jornalismo: “está checado?”.

Se não está, espera-se. Porque o jornalismo pode até disputar atenção. Mas, principalmente, precisa entregar confiança. E isso se constrói com informação correta, responsabilidade e, acima de tudo, medida certa.

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José Armando Vannucci
José Armando Vannuccihttps://www.canaldovannucci.com.br
José Armando Vannucci é um jornalista e escritor com mais de 35 anos de carreira dedicada à cobertura e análise da televisão. Destacou-se na Jovem Pan e em programas da TV Gazeta, TV Globo e Band, consolidando-se como referência no setor ao integrar o júri do Troféu Imprensa, no SBT, e ao lançar, em parceria com Flávio Ricco, a obra "Biografia da Televisão Brasileira". Atualmente, o Canal do Vannucci é seu espaço para compartilhar novidades sobre os bastidores do universo televisivo.